Todas as coisas possuem belezas, mas nem todos as veem. Assim como, toda a vida possui um sentido, mas nem sempre estamos conscientes dele. Segundo o psicólogo Viktor Frankl, nós podemos encontrar sentido na vida de três maneiras diferentes:
Viktor Frankl foi sobrevivente de um campo de concentração nazista, e
desenvolveu a partir desta experiência um conhecimento muito rico, belo e em
certo ponto “transcendental” em relação ao sentido da vida. "Quando
percebi que o máximo que poderiam fazer era prender meu corpo, foi quando
descobri a extensão da minha liberdade“ (V. Frankl)
Quando falamos em autoconhecimento e sentido da vida, pensamos em como
estes elementos podem nos levar ao sucesso, porém, Viktor Frankl nos alerta:
"Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transformarem num
alvo, mais vocês vão errar. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser
perseguido; ele deve acontecer, como resultado de uma dedicação pessoal a uma
causa maior, ou como subproduto da entrega pessoal a outro ser.”
Desta forma, não podemos pensar apenas no caráter objetivo das nossas
metas de vida. Frankl aponta para os aspectos subjetivos do sentido, através da
procura pelos simbolismos que representam nossas escolhas de vida. O
"subproduto da entrega pessoal a outro ser" são os nossos
afetos, assim, ele enfatiza a questão da entrega afetiva aos projetos de vida.
O que deve partir da consciência individual de cada ser, e cuja jornada
no sentido da autorrealização representa o processo de individuação na visão
Junguiana. “Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e
coloquem-no em prática da melhor maneira possível. E então vocês verão que a
longo prazo - estou dizendo a longo prazo! - o sucesso vai persegui-los,
precisamente porque vocês esqueceram de pensar nele" (V. Frankl).
Como resultado da perda de significado subjetivo na metas e objetivos de
vida, normalmente afasta-se do simbolismo que tais escolhas representam para
cada indivíduo, e perde-se a chave simbólica do processo de individuação, que
representa para a psicologia simbólica junguiana a união dos opostos dentro de
cada ser.
“O amor e o poder são as duas principais funções estruturantes na
criatividade e organização do arquétipo central, porque elas fazem parte da
essência do processo de união-separação dos símbolos para formar a consciência.
O amor propicia a união e o poder promove a separação, formando assim a
polaridade básica do desenvolvimento do ser” (Byington, 2005).
Por meio do autoconhecimento procuramos expandir o significado do self
(si-mesmo) através do reconhecimento dos seus potenciais e disponibilizando-os
para o mundo no sentido de uma causa maior, facilitando assim sua busca pela
totalidade. No processo de individuação o self, ou a nossa essência, luta para
diferenciar-se das forças do ego. O ego, por sua vez, luta para ser
reconhecido. Assim, resumidamente o processo de individuação procura
diferenciar e equilibrar as necessidades de realização e reconhecimento,
através do eixo ego-self.
O filósofo contemporâneo Ken Wilber sugere que reconheçamos nossos
talentos para que possamos oferecer ao mundo o que temos de melhor. “Seja
você do modo mais pleno e belo possível, mas lembre-se de que a vida não é
negociável, ela pertence aos deuses, e cabe a você honrá-la e recriá-la com
todos os seus talentos, educados e expandidos ao máximo” (SALLIS).
Isto significa tornar-se um ‘indivíduo’, aquele que não se divide, e o
que não se divide em última instância é a libido, assim um indivíduo pleno é
dono da sua força de vontade. O autoconhecimento possibilita o desenvolvimento
do processo de individuação enquanto a realização do vir-a-ser do humano, cujo
objetivo final é a integração da consciência com o inconsciente.
Neste caminho, a posição do ego fica relativizada pela sua conciliação
com o inconsciente. O ego é, então, assimilado ao “Si - Mesmo”. Essa integração
total do Si - Mesmo, embora seja um ideal de perfeição impossível de ser
alcançado, pode ser buscada como meta” (GRINBERG, 1997).
O autoconhecimento é fundamental ainda no reconhecimento dos bloqueios
que difucultam o desenvolvimento de todos os potenciais, impedindo assim o
processo de individuação. Por isso, “é importantíssimo transformarmos nosso
relacionamento com o medo, aprendendo maneiras de trazê-lo para a consciência,
a fim de aceitá-lo, respeitá-lo e aprender com ele” (GILLEY, 2003). Isto
significa trazer luz à escuridão e Iluminar a sombra. “Se o encontro com a
sombra é obra de aprendiz, o encontro com a alma é nossa obra-prima” (Carl
Gustav Jung).
O ser humano comum vive apenas para a satisfação de suas necessidades.
Ele é movido pela recompensa e a punição. O ser humano virtuoso tenta dominar
sua avidez e trabalhar para o bem estar do seu semelhante. Ele pode ser
considerado um aprendiz da humanidade. Para viajar precisamos estar preparados.
É necessário desenvolver nossa inteligência intrapessoal, aquela capaz de nos
guiar na noite escura e de nos fazer encontrar abrigos na floresta dos sonhos
que vão se identificando aos mitos até se perderem em pura informação, capaz de
dar sentido às emoções.
O nobre sabe que o sentido da vida humana consiste em entender e
realizar o próprio destino, portanto vive em sintonia com suas possibilidades
de desenvolvimento. O nobre educa a si mesmo e tenta conjugar a realização
terrena à determinação celeste. Ele é a medida e o meio. É a pessoa do caminho,
portanto, do aprendizado. O predestinado não só precisa realizar seu destino
pessoal, mas também mostrar e esclarecer o seu conhecimento sobre o sentido e o
objetivo da existência humana. Ele se liga à tradição, e torna-se ele mesmo um
antepassado” (Francisco Fialho).
Desenvolver a inteligência intrapessoal demanda o domínio das quatro
artes: o autodomínio, o autoconhecimento, a amorosidade e a transcendência.
“Conhece-te a ti mesmo.” O Herói é aquele que liberta sua alma aprisionada na
escuridão (na caverna) e busca a luz, o conhecimento de si mesmo. (Sócrates).
O Mago é aquele que, livre da escuridão (a ignorância), usa sua varinha
mágica (o conhecimento) para iluminar o seu caminho e o do outro. “Nada é mais
urgente no processo de formar um homem do que ensiná-lo a respeitar as
fronteiras e os limites de si e do outro, pois somente assim poderá nascer o
respeito” (SALLIS, 2003).
Para isso devemos limpar o corpo e a alma, que significa o trabalho com
a sombra. Devemos realizar a higiene da alma, “que nada mais é do que jogar
fora os rancores, os mal-entendidos, as tristezas e as angústias e tanto lixo
que acumulamos no dia-a-dia. Sem essa faxina diária, não haverá saúde que
aguente o passar implacável dos anos” (SALLIS, 2003).
O autoconhecimento demanda descobrir nossos talentos e desenvolver a
intuição. “Talvez o que esteja sendo pedido a nós agora é criar um alinhamento
entre as naturezas, entre a alma das pessoas e a alma do mundo, uma relação
necessária à saúde de tudo o que vive em nosso mundo Terra”. Como diz Stephen
Aizenstat “Deixa o caráter ser formado pela poesia, fixado pelas leis do bom
comportamento, e aperfeiçoado pela música. Deves ter a cabeça sempre fria, o
coração sempre quente e a mão sempre larga.”
É um momento de expressar-se no mundo ou de tornar-se consciente do seu
próprio potencial e vivenciar a sua totalidade. “Além de conter desejos,
memórias e instintos reprimidos, o inconsciente está sempre agrupando e
reagrupando símbolos e imagens, produzindo sem cessar sonhos e fantasias,
funcionando como uma matriz autônoma criadora da vida psíquica normal.
(GRINBERG, 1997, p. 82).
“Dois terços do que nós vemos está por trás dos nossos olhos” (Provérbio
Chinês). Quando o inconsciente é examinado, descobrimos um mundo de heróis,
rainhas, senhores, escravos, etc. Só uma psicologia baseada no entendimento de
como essas imagens arquetípicas formam todas as atividades culturais e
criativas pode fazer justiça às realidades múltiplas que chamamos ALMA.
A “sombra” é um arquétipo do inconsciente coletivo e representa aspectos
rejeitados e reprimidos da personalidade. O que somos? O que é o humano?
Habitualmente pensamos no ser humano como um ser racional, e frequentemente
declaramos em nosso discurso que o que distingue o ser humano dos outros
animais é seu ser racional.
Dizer que a razão caracteriza o humano é um prejuízo, porque nos deixa
cegos frente à emoção, que fica desvalorizada como algo animal ou como algo que
nega o racional. Quer dizer, ao nos declararmos seres racionais vivemos uma
cultura que desvaloriza as emoções, e não vemos o entrelaçamento cotidiano
entre razão e emoção, que constitui nosso viver humano, e não nos damos conta
de que todo sistema racional tem um fundamento emocional.” (MATURANA, 2002, p.
14-15).
Para a psicologia simbólica junguiana o ser humano é um ser vivo que
apresenta autonomia sustentada por uma organização arquetípica, coordenada pelo
arquétipo central (si-mesmo). E esse ser vivo é continuamente transformado
pelos complexos ou subpersonalidades. A estrutura sempre muda com
transformações aleatórias do meio, com isso não é possível falar em
predeterminação, mas em circularidade.
O processo de individuação não consiste num desenvolvimento linear, mas
num movimento de circunvolução que conduz a um novo centro psíquico – o self
(arquétipo central e organizador do desenvolvimento). Assim, a importância do
autoconhecimento é a aceitação e o reconhecimento da sombra.
Individuar-se é tornar-se um indivíduo, tornar-se si-mesmo, ou seja,
aquilo que de fato somos. Nossa identidade pessoal livra-se dos invólucros da
persona e a personalidade livra-se do poder sugestivo das imagens primordiais,
ou seja, da possessão pelos complexos. O ego é, então, assimilado ao
self.